És Preto, Pobre ou Burro?
Por Lobão
Não adianta. Jamais escaparei desta pergunta. Por mais que conte e reconte essa marcante passagem da minha vida, o que permanece é sempre uma sensação de inverossimilhança, de irrealidade. É algo como uma alucinação em forma de um moto-perpétuo do destino, uma terrível possibilidade de revelação que se apresenta quando me flagro repetindo-a de novo e de novo.
Meu primeiro contato com meus companheiros da cela 11, na Polinter do Rio de Janeiro, foi no dia primeiro de abril ( ! ) de 1987. Mal entro no xilindró e o saudoso colega Gilmar Negão, com um semblante de ternura angelical, me desfere a mortífera pergunta: "Tá fazendo o que aqui, meu irmão? Por acaso tu és preto, pobre ou burro?"
Sofri de imediato o impacto. Porém, por incrível que pareça, o momento do choque foi também o instante em que nasceu uma grande amizade em meio a uma historia de terror e injustiça, sublimada por um companheirismo e uma união que jamais experimentara até então.
Mas, nas minhas entranhas, a pergunta regurgitava em busca de uma resposta: "Sou preto, pobre ou burro para estar preso, primário e enjaulado dessa maneira, assim como constato de corpo presentésimo?!"
Tudo isso a revolver minha memória quando começo a escrever o prefácio do livro do meu amigo e brilhante jornalista, Marco Frenette, porque Preto e Branco - A Importância da Cor da Pele, é um livro imprescindível que desvenda pontos de vista-tabus na história brasileira; são novas luzes jogadas sobre o pensamento de Gilberto Freire; são revelações de um racismo endêmico que permeia a cultura nacional e o comportamento cínico da sociedade brasileira; é um racismo travestido de brejeirices tépidas de eufemismos orgulhosos, de uma realidade delirante e mentirosa.
Nelson Rodrigues, com certeza, ousaria repetir da mesma forma: "Sou preto, pobre ou burro para não perceber que esta questão é muito mais explícita do que parece?".
Mais de 70% da população carcerária no Brasil é preta... E o resto deve ser composto de nordestinos. E eu ali... um alienígena sendo interpelado pela pergunta-chave, radiografado por uma especulação sombria na qual reluto me enquadrar. Será que só me resta ser burro?
Nada disso, preferi responder ao Gilmar: "Não, não sou burro não: eu sou negão, rapá ! Eu sou negão também. Se tenho sobrenome holandês, e se minha pele é a de um branco azulado, azar dos fatos".
Quando entrei para a bateria da Mangueira, logo após uma épica jornada no teste de seleção comandado pelo meu saudoso irmão, Alcir Explosão, a senha que significou minha aprovação foi essa: "Lobão, agora tu é negão!"
Foi uma das maiores sensações de pertencimento que já vivi. Foi assim que tudo passou a fazer sentido. Minha alegria foi absoluta! Primeiro, porque simplesmente é lindo desfrutar desse tipo de pertencimento, ser abraçado e sentir que através de atitudes libertadoras, ativas, preciosas e amorosas, podemos escrever novos capítulos para a nossa história, capítulos que sejam verdadeiramente bonitos e felizes. E, finalmente, a irrefutável constatação dessa revelação belíssima: "Eu sou negão; Jô soy negon!"
São por essas coisas que me lembro com saudades do Gilmar e da galera da cela 11, e os associo ao livro do Frenette.
Que todos nós olhemos para o Brasil com espírito altaneiro, pronto para realizarmos uma odisséia, uma revolução pela palavra, com determinação e respeito, para desfrutamento de mais amor, compreensão e pertencimento.
Força para o nosso povo.




















































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